Objetivo da atividade econômica e a distorção capitalista

Por: Victor MouraInstituto Myrdal

Em uma entrevista recente, a economista Maria da Conceição Tavares comentou assertivamente: “ninguém come PIB”. Seu comentário, embora simples, pode ser visto como uma pontual denúncia à distorção do objetivo central da economia.

Em uma bela construção imaginativa poderíamos dizer que a economia deveria servir a subsistência do homem, e não a necessidade de mercado. Poderíamos criar um mundo onde a produção fosse feita para atender a necessidade social humana, e não ao acúmulo de alguns. Parece utópico? Pois não deveria. Em sua definição inicial, desde Aristóteles, a economia esteve enraizada a uma básica noção de “gerir e administrar a casa”. É um fato que tivemos em diferentes sociedades e períodos históricos uma produção guiada para servir à necessidade social da subsistência do homem (como fizeram os incas, astecas, chineses, maias, romanos e no medievo). E somente em períodos mais recentes vimos a definição de economia passar por uma transformação ao ser usada para servir aos “ideais de mercado”. Com isso se construiu uma máscara para um discurso de “fins e meios” onde sacrifícios humanos são feitos em prol de uma utopia econômica que serve a si mesma.

Há quem afirme erroneamente que o mercado emerge da “natureza humana” como algo que sempre esteve presente. Embora houvessem no passado economias com base na troca e comércio, não havia o mercado. É preciso ressaltar que comércio não é equivalente a mercado. O mercado como conhecemos (e como definem os economistas hoje) é uma exclusividade da sociedade capitalista. Caracterizado por sua auto-regulação, ele pode ser definido pela submissão da sociedade capitalista à sua estrutura de mercado. O que leva à falsa concepção de que tal estrutura seja a base central da economia, quando na verdade deveria ser apenas mais uma peça na estrutura econômica como um todo. Se pegarmos exemplos históricos de organizações econômicas, podemos dividir as economias em enraizadas e desenraizadas. As enraizadas submetiam a produção à necessidade social e, com isso, conseguiam suprir a subsistência humana. Nelas, mesmo existindo hierarquias internas na organização social, as relações econômicas eram subordinadas à sociedade. Ao passo que economias desenraizadas (como a economia capitalista) são a inversão desse processo. Nelas a economia de submissão ao mercado é quem controla a sociedade, subjugando as relações sociais às relações de mercado.

As sociedades enraizadas se organizavam por dois princípios básicos: O de reciprocidade – onde cada um contribui com aquilo que sabe fazer e recebe o que precisa. E o de redistribuição – como as grandes primeiras civilizações agrícolas em Roma e suas transações econômicas com o Egito. Ambas garantindo a subsistência de suas sociedades na forma do “cálculo doméstico” da necessidade social na troca. A relação entre Roma e Egito, porém, não pode ser considerada uma relação de comércio internacional, pois não havia equivalência, preço, entre outros elementos que a tornam muito diferente do sistema internacional de mercado de hoje. Ainda assim, sua organização, no que tange a necessidade social, é muito mais evoluída.

Há uma contradição na forma como indivíduos encaram a realidade histórica hoje. Se por um lado é possível que pessoas razoáveis reconheçam que a história, por si, é mutável; por outro lado, quando confrontados com uma mudança específica, há uma ingênua negação e uma busca pelo discurso de que tudo “foi sempre assim e assim sempre será”. O fato é que a história só faz mudar. E dentro dessa consciência de mudança é possível reverter o objetivo da economia para que, sem que haja abandono de inovações e de novas técnicas de produção, ela volte a servir a necessidade social, e não mais a necessidade de mercado.

Referência:

A Grande Transformação – As Origens de Nossa Época – Karl Polanyi

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