A Teoria de Valor e o afastamento entre produção e consumo

Por: Victor Moura – Instituto Myrdal

Um pai pergunta a seu filho “você sabe de onde vem o leite?”. Prontamente o garoto
responde “da geladeira”. Essa anedota nos diverte por refletir o ingênuo desconhecimento de uma criança sobre os processos de produção do leite. Estranhamente essa realidade não se aplica somente à crianças. Você provavelmente se lembra da última vez que esteve em um estabelecimento e comprou uma commoditie.  Ao sair da loja, provavelmente teve uma série de outras preocupações, exceto algo tão básico como: “de onde vem isso?”. Mas você sabe de onde veio o leite. Da vaca! Mas, a esta altura você já deve ter notado que está alienado de diversas etapas da cadeia de produção desse leite. Ele de fato sai da vaca, por ordenhadeiras mecanicas, depois vai a caminhões de transporte, para ser levado à usina onde se faz a pasteurização, e, novamente, ao transporte que o leva até a prateleira de supermercado. Não se dar conta de todo esse processo não é culpa sua. A questão é que a esfera do consumo (onde você compra o leite) conta com a sua alienação em relação as outras esferas do capitalismo. Isso porque essa alienação garante que lhe passe desapercebido o Valor do trabalho embutido no produto. Pois se há uma coisa em comum durante todo esse processo, essa coisa é o trabalho humano em cada etapa de produção. A cadeia de produção é longa, interdependente e coletiva. Perceber isso é entender o que é o valor-trabalho.

Mas antes de pensarmos em Valor temos que entender que o capitalismo não se resume
apenas a esfera de consumo, mencionada antes. Ele tem, pelo menos outras quatro esferas: Na extração é onde são extraidas as matérias primas. Isso é feito na forma de exploração em países com riqueza natural e baixo poder econômico. Muitas vezes se utilizando de mão de obra escrava, semi-escrava, ou muito barata para mineração. Não é incomum ver guerras para assegurar o controle sobre tais territórios. Tampouco a extração em áreas preservadas. Nossa segunda esfera é a da produção . É nela que se apresentam as condições de trabalho abusivas, salários baixos, terceirizações, mão de obra barata (locais ou de países subdesenvolvidos) e filiais de grandes empresas em países onde estas conseguem negociar tributação mínima para produzir suas commodities sem contríbuir com a arrecadação local dos paises que abrigam tais
filiais. Chegamos então a esfera do consumo , é nessa onde você compra seu leite, ou roupa, ou qualquer outro bem de consumo sem se dar conta da larga escala de produção. Na esfera do descarte temos agressão ao meio ambiente de diversas formas com lixo e despejo de uma produção guiada pelo lucro que deixa de atender uma demanda real da necessidade para atender a demanda dos que podem pagar. E por último temos à esfera do lucro onde se concentra a renda do capital. Nela vemos o resultado de um produto que pode chegar na esfera do consumo custando 70% a mais do que custou para ser feito nas fases de extração e produção. Deixando na esfera do lucro o acúmulo de capital, que se concentra no dono do produto sem levar em consideração todo o trabalho de outros individuos que levaram a produção.

Chegamos, portanto, a noção de Valor. O Valor (imaterial e relacional) de uma
commoditie é medido pelo trabalho humano em sua produção, o tempo de trabalho
socialmente necessário , ou seja, o tempo socialmente necessário que um individuo médio leva para executar sua tarefa que faz parte da produção daquele produto. E esse Valor tem um caráter duplo composto pelo valor de uso (qualidades e quantidades materiais, heterogêneo) e pelo valor de troca (quantitativo e homogêneo). O valor de uso é o próprio valor que se encontra na utilização da commoditie. O valor de troca, por sua vez, é o valor de uma commoditie em relação à outra commoditie. Você só sabe quanto vale um produto ao observar quanto ele custa frente a outro produto. E essa troca é, por fim, simbolizada no ato de venda e compra pela commoditie dinheiro. O valor de troca nada mais é do que a mensurabilidade entre os diferentes valores de uso de diferentes commodities. E é aí que os três se interligam, pois, para que seja socialmente necessário, esse trabalho tem de ter valor de uso para alguém, reconectando o Valor ao valor de uso e ao valor de troca, definindo Valor como a combinação de ambos (troca e uso).

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Há, porém, uma corrente de pensamento apoiada, principalmente, na ideologia que
sustenta o “paradoxo da agua e do diamante” e a “lei da utilidade marginal”. Tal corrente prega que o valor de algo seria, na verdade, inteiramente subjetivo. Os defensores dessa noção alegam que o valor de algo não está atrelado ao seu valor de produção, mas sim ao quanto o consumidor está disposto a pagar por este algo. Embora essa subjetividade seja debatível até mesmo enquanto fetichismo de mercadoria, meu objetivo aqui não é determinar se há ou não subjetividade no valor, mas sim apontar que INDEPENDENTE de haver um aspecto subjetivo contido no em um produto, este, NÃO EXCLUI o valor-trabalho contido na produção do mesmo.

Se um bem de consumo é vendido por 10 ou 10 mil no mercado, a cadeia de produção que levou o produto por todo o processo não pode ser excluída dessa relação final, pois é tal exclusão que leva ao acúmulo de capital.

Há um cinismo pulsante em uma sociedade que se nega a aceitar o valor de trabalho
como sendo o tempo de trabalho socialmente necessário, mas que mede produtividade com exatamente a mesma relação. Se pra saber se um funcionário é eficiente você está disposto a aceitar que seu tempo de trabalho socialmente necessário é determinante para produzir riqueza,
porque negar isso ao falar do Valor? Porque não convém a ideologia dos poderosos que se creia que o trabalho tem um valor que afeta o resultado final. Ou mesmo que a própria existência do produto final depende objetivamente do trabalho. Por isso querem você bem distante das outras esferas do capitalismo. Porque, se você esquecer que é fundamental que uma camisa seja costurada e transportada para que ela exista como produto, você não se incomoda que ela possa custar o triplo do preço que o costureiro e a transportadora receberam para fazer com que a camisa existisse e chegasse até você na esfera do consumo.

Fontes bibliográficas: MARX, Karl. O Capital, HARVEY, David. Para entender O Capital

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