Teoria da Causação Circular de Myrdal

Por: Nilton Marques Oliveira e Udo Strassburg

Myrdal (1968) usa esse conceito para falar de um ciclo virtuoso ou vicioso, que
tanto pode ocorrer de forma ascendente quanto descendente, ou seja, uma sequência de fatos que desencadeia outros fatos de forma cumulativa e propulsora. Ele utiliza esse
conceito tanto no campo econômico, quanto no campo social.

No primeiro campo, com relação às expectativas de preços para cima e para
baixo, um polo de desenvolvimento econômico pode se expandir cumulativamente em
detrimento de outros.

O segundo campo trata da questão dos negros nos Estados Unidos, associando
variáveis econômicas e não-econômicas, num contexto vicioso em que o negro, se
tiver baixo nível de desempenho, terá baixos salários, muitos não terão emprego, níveis
de educação e saúde precários, acentuando a discriminação e a pobreza (MYRDAL,
1944).

Segundo Myrdal (1968), a expansão na produção de um centro urbano gera
benefícios a localidades adjacentes, pois emprega grande quantidade de trabalhadores,
estimulando o mercado de bens de consumo. Diz ainda que desigualdades regionais se
agravam quanto mais pobre for o país, e que, quanto maior o nível de desenvolvimento,
mais forte são os efeitos propulsores, tendo em vista as condições sociais e econômicas
de que dispõem os países mais ricos.

Um alto nível médio de desenvolvimento é acompanhado por melhores
transportes e comunicações, padrões educacionais mais elevados e uma comunhão mais
dinâmica de ideias e valores, todos propensos a robustecer as forças para a difusão
centrífuga da expansão econômica ou a remover os obstáculos à sua atuação.

A abordagem cumulativa dos efeitos ou causas (1) possibilitou a Myrdal (1968) integrar, de forma sistemática, os problemas de escolha ótima da localização, com os problemas do desenvolvimento regional. Analisando a Figura 1, o modelo, concebido para um país com baixo desenvolvimento econômico, apresenta como a localização num determinado local, de uma nova atividade econômica, com razoável dimensão, teria efeitos positivos na expansão do emprego e da população. Myrdal (1968) afirma que dotar a região com infraestrutura, empresas públicas, serviços básicos de educação e saúde, resulta em um aumento das receitas fiscais, o que leva a uma melhoria no ambiente empresarial na região/local. Esta teoria é, contudo, uma das poucas do desenvolvimento social e econômico em que o sistema econômico é abordado de forma dinâmica.

1 Os efeitos e causa Myrdal chamou de spred e backwash . Os spread effects são efeitos cumulativos inter regionais
positivos com origem na região e que se ramificam para o resto do país. Os backwash effects são efeitos cumulativos
inter regionais negativos para o resto do país devido à atração dos fatores para a região.

 

Figura 1 – Princípios das Causas Cumulativas segundo Myrdal

Modelo myrdal

Fonte: Matos (2000) adaptado pelo autor

Esta abordagem envolve simultaneamente, os problemas de localização e da
teoria do desenvolvimento social e econômico, ela parte do princípio de que a escolha
da localização e o desenvolvimento econômico, na ótica regional e mundial, só podem
ser explicados por meio da mobilidade espacial do capital (SANTOS, 1994; BECKER,
2000, 2010).

Há diferentes abordagens sobre a questão do desenvolvimento regional, a grande
maioria parte das desigualdades existentes no sistema regional, ou seja, certas regiões
têm características que lhes permite criar uma organização desigual do espaço, como
explica Matos (2000); o poder dominante das grandes unidades (teorias dos polos de
crescimento); o caráter cumulativo dos mecanismos de crescimento (teoria da
causalidade circular de Myrdal); a lógica do capital (teoria do imperialismo); a ação das
forças que retardam ou anulam a convergência (teoria centro-periferia); as tendências
de especialização hierarquizada dos espaços (teoria da divisão espacial do Trabalho).

Conforme a constatação de Costa (2002), de acordo com Myrdal, quanto mais
alto o nível de desenvolvimento de um país, maiores serão os efeitos propulsores, com
melhor transporte e comunicação, melhores padrões educacionais, ideias e valores dinamizados, fatores que impulsionam a expansão econômica, possibilitando níveis
ascendentes de renda para todos.

Quanto mais o Estado Nacional se transforma em Estado de bem-estar social,
maior será o impulso na direção do desenvolvimento econômico e do progresso da
causação circular cumulativa.

Diz ainda que, mesmo em países subdesenvolvidos, se o Governo tomar como
prioridade investimentos na criação de escolas e universidades, em preparação de
cientistas e pesquisadores em todos os campos, tende-se a um movimento de equilíbrio
da renda, o que irá provocar um processo cumulativo para o desenvolvimento social e
para o crescimento econômico nacional.

De acordo com Myrdal (1968), a educação talvez seja a mais importante função
do Estado e dos governos locais, utilizando de meios institucionais que estabeleçam o
comparecimento obrigatório das crianças às escolas e que obtenha das pessoas o
reconhecimento, através dos gastos nessa área, da importância da educação para uma
sociedade democrática, sendo fundamental para uma boa cidadania.

Trazendo a discussão na linha do pensamento de Myrdal, para o caso brasileiro
sobre o desenvolvimento social e o Estado de Bem-estar, pode-se dizer que esta
discussão, ainda, é recente no Brasil, a distribuição de renda praticamente iniciou a
partir de 2001, quando o governo federal adotou o Programa Bolsa Escola como
complementação de renda às famílias, assumindo a família também alguns
compromissos para se beneficiar de tal programa, como garantir a frequência escolar
dos filhos e determinadas ações na área da saúde. Mas ainda existe um longo caminho a
ser percorrido para que possa ser considerado um país que tenha a educação e a saúde
como metas principais em sua agenda, passando a ver como efeito propulsor do
desenvolvimento da nação, não apenas como gastos elevados, com resultados a longo
prazo (JENSEN, 2009).
Em 2004 o Estado unificou os programas de transferência de renda criando o
Cadastro Único (CadÚnico), tendo como principal programa o Bolsa Família (PBF),
que tem gerado controversas na sociedade quanto a sua eficácia, para alguns tem
impulsionado a economia local, no interior do País, outros dizem que o Programa é de
cunho eleitoreiro. Não cabe aqui discutir a validade ou não do Programa. Entre 2004 e
2010 o Brasil repassou para o Programa, 439, 87 milhões e 1,23 bilhões,
respectivamente, aumentando os repasses em 181% (IPEDADATA, 2010).

Entre 2000 e 2010 o Brasil apresentou melhoria na renda domiciliar per capta,
que era de R$563,49 em 2000, a qual passou para R$705,00 em 2010, um aumento de
25% no período (valores corridos). Houve, também no país redução da taxa de pobreza
extrema entre 2000 e 2010, reduziu cerca de 52%. A linha de extrema pobreza no Brasil
é de R$70,00 per capita ao mês, utilizada pelo Programa Bolsa Família, bem próxima
aos U$1,25 ao dia, adotado pelo Banco Mundial (IPEADATA, 2010).
A seguir será apresentado o pensamento sobre o bem-estar social no processo de
desenvolvimento socioeconômico para humanidade.

 

Leia o artigo completo: Revisitando o Pensamento do Gunnar Myrdal e Amartya Sen Sobre o Estado de Bem-Estar Social – Nilton Marques Oliveira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s