Estado vs. Mercados: uma falsa dicotomia

Por: Mariana Mazzucato e Caetano C.R. Penna – Brasil Debate – Revista Política Social e Desenvolvimento

Os países mais bem-sucedidos têm um ecossistema simbiótico de inovação e de produção, em que agentes públicos e privados se beneficiam e lucram de ações e interações mútuas. Nestes casos, a iniciativa privada não “captura” o Estado, nem o Estado se torna uma ferramenta para favores políticos

Estado-vs-mercado

O debate sobre os papéis relativos do Estado e do mercado em economias capitalistas tende a oscilar ao longo do tempo nas mentes e nos corações da opinião pública e dos decisores de políticas públicas: os períodos em que o Estado é defendido por seu papel no desenvolvimento econômico são sempre substituídos por um ataque à sua intervenção no “bom funcionamento” de mercados.

Foi assim ao longo do século 20 (ver REINERT, 2009, para uma análise de como as oscilações deste pêndulo estão ligadas a mudanças na agenda de investigação predominante da economia). E é isso o que aconteceu desde a mais recente crise financeira global e da recessão econômica: um breve período logo após a sua erupção, quando era quase um consenso que o Estado tinha um papel fundamental a desempenhar na promoção do desenvolvimento e do crescimento por meio da política industrial, foi rapidamente apreendido por aqueles que diziam o contrário. A austeridade tornou-se o prato do dia, enquanto as políticas industriais ativas transformaram-se no modismo da última estação. Continuar lendo

A Teoria de Valor e o afastamento entre produção e consumo

Por: Victor Moura – Instituto Myrdal

Um pai pergunta a seu filho “você sabe de onde vem o leite?”. Prontamente o garoto
responde “da geladeira”. Essa anedota nos diverte por refletir o ingênuo desconhecimento de uma criança sobre os processos de produção do leite. Estranhamente essa realidade não se aplica somente à crianças. Você provavelmente se lembra da última vez que esteve em um estabelecimento e comprou uma commoditie.  Ao sair da loja, provavelmente teve uma série de outras preocupações, exceto algo tão básico como: “de onde vem isso?”. Mas você sabe de onde veio o leite. Da vaca! Mas, a esta altura você já deve ter notado que está alienado de diversas etapas da cadeia de produção desse leite. Ele de fato sai da vaca, por ordenhadeiras mecanicas, depois vai a caminhões de transporte, para ser levado à usina onde se faz a pasteurização, e, novamente, ao transporte que o leva até a prateleira de supermercado. Não se dar conta de todo esse processo não é culpa sua. A questão é que a esfera do consumo (onde você compra o leite) conta com a sua alienação em relação as outras esferas do capitalismo. Isso porque essa alienação garante que lhe passe desapercebido o Valor do trabalho embutido no produto. Pois se há uma coisa em comum durante todo esse processo, essa coisa é o trabalho humano em cada etapa de produção. A cadeia de produção é longa, interdependente e coletiva. Perceber isso é entender o que é o valor-trabalho. Continuar lendo

Sobre Equilíbrio Monetário

Por: Fernando Nogueira Cidadania & Cultura – 18/06/2015

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O Equilíbrio Monetário, livro de Gunnar Myrdal publicado em sueco, em 1931, e em inglês, em 1939, foi tentativa de reconstrução crítica da noção de “taxa de juros normal”, elaborada originalmente por Knut Wicksell. Esse conceito deveria cumprir três diferentes condições para se atingir o Equilíbrio Monetário:

  1. igualar à “taxa natural (ou real)”;
  2. equalizar investimento e poupança;
  3. preservar o nível geral dos preços estável.

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Objetivo da atividade econômica e a distorção capitalista

Por: Victor MouraInstituto Myrdal

Em uma entrevista recente, a economista Maria da Conceição Tavares comentou assertivamente: “ninguém come PIB”. Seu comentário, embora simples, pode ser visto como uma pontual denúncia à distorção do objetivo central da economia.

Em uma bela construção imaginativa poderíamos dizer que a economia deveria servir a subsistência do homem, e não a necessidade de mercado. Poderíamos criar um mundo onde a produção fosse feita para atender a necessidade social humana, e não ao acúmulo de alguns. Parece utópico? Pois não deveria. Em sua definição inicial, desde Aristóteles, a economia esteve enraizada a uma básica noção de “gerir e administrar a casa”. É um fato que tivemos em diferentes sociedades e períodos históricos uma produção guiada para servir à necessidade social da subsistência do homem (como fizeram os incas, astecas, chineses, maias, romanos e no medievo). E somente em períodos mais recentes vimos a definição de economia passar por uma transformação ao ser usada para servir aos “ideais de mercado”. Com isso se construiu uma máscara para um discurso de “fins e meios” onde sacrifícios humanos são feitos em prol de uma utopia econômica que serve a si mesma. Continuar lendo

O obituário de Myrdal

Por: Marcelo MiterhofFolha de S.Paulo – 20/02/2014

“O Nobel Gunnar Myrdal é um herói da esquerda que anda esquecido; recordá-lo é um bálsamo.”

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Uma das coisas que mais gosto de ler na Folha é a seção de obituários. Eles, paradoxalmente, proporcionam alívio no meio dos conflitos que ocupam o espaço primordial de um jornal. Em geral, tratam de pessoas pouco conhecidas, mas que deixaram uma marca: o cozinheiro querido de uma família paulistana, o jovem professor de caratê que não suportou a perda da mãe, uma senhora de Mococa, que morreu no dia em que voltou da realização do sonho de conhecer Paris etc. Continuar lendo